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19.4.09

Morrer

 
   Naquela segunda-feira, Julio se levantou normalmente. Dormira especialmente bem, ao saber (através de esforço próprio) que no dia anterior que mais uma vez sua crônica dominical havia sido elogiada por inúmeros leitores. Logo, depois de escovar os dentes, decidiu que iria tomar um café formidável numa padaria de qualidade.
   Aquele homem era um escritor – um freelancer – cuja escrita fez tanto sucesso que foi convidado pelo jornal à repeti-la. Com o tempo, aquela acabou virando a coluna fixa dele – mesmo sem criar nenhum vínculo especial com aquele folhetim.
   Suas crônicas eram publicadas todos os domingos e ele já até ganhara certa fama por ser tão habilidoso ao manusear as palavras com tanto cuidado e descrever tão bem a essência humana. Era melhor do que alguns nomes consagrados diziam.
   Lá na padaria, Julio tomou o café da manhã e foi simpático com todos. Depois saiu e sentou-se num daqueles bancos de madeira, numa pracinha por perto. Lá uma mulher de uns cinqüenta anos lia o jornal de segunda-feira – o mesmo em que ele publicava suas crônicas dominicais.
   Numa oportunidade ele tentou puxar conversa.
- Notei que você tá lendo esse jornal... Você gosta da coluna do Julio Douglas que sai aos domingos?
- Nossa, eu adorava...
- Adorava?
- É... Você não sabe ainda? – ele balançou a cabeça – O Julio, coitado, morreu afogado.
   A sensação de ficar ciente da própria morte num momento de vivacidade é algo para poucos. Era o final da década de 70, e realmente, muitos boatos corriam sobre falsas mortes de artistas famosos – como Hebe ou Chico Anysio. Sentindo-se abalado por um segundo, Julio logo superou isso levando o fato na brincadeira.
   Ninguém sabia que ele era o “Julio Douglas”. Falou com outras pessoas (com quem conversava sobre a crônica dominical casualmente) e ouviu:
- Ah, eu soube, ele foi atropelado, né?
- Pegar pneumonia com o tempo tão ensolarado... Uma tragédia.
- Teve um enfarte. E dizem que ele só tinha 20 anos.
- O Julio morreu? Que pena... A última noticia que eu tive dele, ele ainda respirava com ajuda de aparelhos.
- Ele já estava velho mesmo. Morreu dormindo.
   Foram tantas as respostas que Julio que depois de rir, ele começou a se preocupar. Decidiu pôr sua genialidade em ação. Escreveu uma bela crônica sobre os boatos que o levaram à "morte".
   Mas na sexta-feira quando foi integrar os papéis para o editor revisar e publicar no domingo. Teve uma surpresa: foi recusado. Motivo: ele tinha morrido.
- Aliás, Julio, tem certeza que você tá vivo?
   Depois de bater boca com o editor – que era a única pessoa que o conhecia de fato – conseguiu convencê-lo.
   A matéria lá. A repercussão daqueles que o admiravam foi: primeiro surpresa, mas depois... Bem, depois eles perceberam que estavam sendo enganados. Existiam os boatos? Claro. Mas Julio Douglas morreu, aquela escrita não era como a dele.
   Em desespero, o escritor passou a semana sem dormir e redigiu a melhor crônica de sua vida. Só isso já era recompensador.
   Domingo sua coluna saiu. E sentado naquele banco de madeira na pracinha, ele perguntou para a mulher de uns cinqüenta anos.
- E aí, viu que aquilo sobre o Julio era só boato?
- Que boato que nada, eles substituíram o Julio por um outro muito menos talentoso, só para que a gente continue lendo... Mas o povo não é burro, não senhor.
   Sem falar nada e com o coração tamborilando forte – ele notou: estava mais morto do que nunca. Saiu de lá louco de raiva. Ficou a semana inteira trancafiado no seu minúsculo apartamento. Na sexta, estava completamente branco – não comia direito desde sua “morte”.
   O editor disse que não publicaria mais a coluna dele. As pessoas estavam furiosas com aquela suposta brincadeira de mau gosto. Julio ficou em silêncio e decidiu somente ir embora, não precisava se sentir mais humilhado do que estava.
- Ei, cara, é melhor você se cuidar, tá parecendo um fantasma, pálido desse jeito.
   E então, três semanas após sua morte, Julio Douglas entrou no seu apartamentinho e parou de existir.


obs: essa crônica é uma homenagem ao Chico Anysio.
obs²: Vale lembrar que esse blog aqui, foi o culpado de tudo. (Sim, isso é um agradecimento.)

12.4.09

A Estrela (de Cinema)

 
   Um idoso compra remédios silenciosamente na farmácia. Seus dedos vacilam entre os pequenos potinhos de pílulas e ele hesita. De repente, um jovem diz, um pouco alto demais. “Não acredito! O que John Carter está fazendo aqui!?”. É um rapaz estranho, deve ter uns vinte anos.
   E ele não pára; Aproxima-se falando em inglês com o idoso. “Talk to me John, I’m your biggest fan! Gimme an autograph!”. O velho olha para a cara do garoto e fala “Tá doido?”. A reação é “Meu Deus! John Carter fala português!” e depois “Me dá um autógrafo! Eu assisti todos os seus filmes, eu sou o seu maior fã! Meu pai adorava quando você dizia aquela frase de impacto: I won't spill blood... Anymore!”. O velho ranzinza pega seu remédio e vai andando lentamente até o caixa tentando ignorar o jovem irritante que berra seus filmes incríveis e fala quais eram os seus preferidos e as suas falas favoritas...
   “Garoto! Eu não sou esse cara, então, por favor, me deixa em paz.” O suposto John Carter pega seu remédio e sai da farmácia. O rapaz vai atrás dele “Não precisa ser modesto! Eu só quero um autógrafo, please!”. O velho ignora e segue, o garoto continua atrás dele implorando pelo autógrafo “Meus amigos não vão acreditar que eu encontrei o incrível ator John Carter numa farmácia do Rio de Janeiro!”. O idoso parou, e falou lentamente “Olha, se você continuar me seguindo, eu chamo a polícia.”. O jovem olha para ele, pensa um pouco... “Atrás daquele ladrão, 1962 – eu lembro bem dessa fala! - (faz cara de mau) Look boy, if you keep following me, I will call the cops and you... You will suffer more than that guy in the cross.” O velho suspira e continua andando “Vá embora garoto.”. De repente, o rapaz para e faz uma cara de choro “Mas... Mas... M-mas...”. O velho diz de novo “Só vá embora, só isso.”.
   Com os olhos cheios de lágrimas, o jovem de vinte anos vira as costas ainda mal acreditando que encontrara John Carter, seu maior ídolo. O velho não dá bola para ele e vai para casa. Entra no prédio, cumprimenta o porteiro Josué e sobe.
   Lá ele liga o computador (onde fica o botão de ligar mesmo?) – coisa que não fazia há séculos – e entra naquele site de procura, o... Google, isso! Escreve “John Carter.”. A primeira página que aparece ele clica. Um texto enorme falando sobre um ator antigo... E ao lado há uma foto dele. O velho pensa “Não é que é parecido mesmo?”.
   Depois desce até o térrio, havia esquecido de pegar o jornal. O porteiro se desculpa por não ter lembrado antes. O velho aproveita para dizer uma coisa. “Josué, você sabia que eu fui um grande ator de Hollywood nas décadas de cinqüenta e sessenta?” Ele faz que não com a cabeça e parece muito surpreso. “Pois é, eu era um ótimo ator... Já sei, você quer um autógrafo, né?”.
   Volta para seu apartamentinho. Pega seu pote de remédios e anda lentamente até a janela. Vira o recipiente e vários compridos caem lá embaixo. Depois lança o pote daqueles antidepressivos também. Ele ri sozinho e fala para si mesmo “Finalmente... Sou uma estrela.”.

5.4.09

Para Parar de Fumar

 
   Selo no braço, mas cigarro no bolso. Para não fumar, Sérgio bebia umas cervejas, sentado sozinho numa mesa de bar. Futebol na televisão, bastante gente lá. E ele não fumava. Ótimo. Tudo ocorria bem até que...
   Ele avistou uma linda mulher, loira, lábios carnudos. Olhou para sua cerveja, seu reflexo solitário, e pensou: por que não? Então, tentando parecer simpático Sérgio voltou seus olhos à moça. Tudo ocorria bem até que...
   Aquele rosto apareceu claramente em sua memória: era Gisele, a mulher do Diego, seu irmão. A imagem daquele cigarro apareceu na sua cabeça. É melhor ficar perto de alguém. Mesmo que seja a mulher do meu irmão. Ele foi até lá. Tudo ocorria bem até que...
   O celular tocou.
- Alô.
- Alô.
- Opa, e aí tudo certo Diego?
   Ele estava quase chegando na mesa dela. Tudo ocorria bem até que...
- Na verdade não, Sérgio.
- Ah é, o quê que houve?
   Ele até parou de andar. Tudo ocorria bem até que...
   Um homem negro e corpulento sentou-se na mesa à sua frente, a mesa de Gisele, a mulher do irmão.
- Cara, eu descobri uma coisa horrível...
   Sérgio ficou um pouco aliviado: é, já sei, já sei. Pelos menos ele sabia que estava sendo traído. E além do mais, Sérgio sempre achou que ela tinha uma cara de adúltera. Tudo ocorria bem até que...
   Gisele avistou Sérgio e fez um gesto para que ele se aproximasse. O negão se despediu dela, cumprimentou o homem ao celular e foi embora.
- Ô Diego, é você me ligar depois.
   Tudo ocorria bem até que...
- E aí, tudo bem Sérgio?
   Na cabeça dele, tudo se encaixava e ele estava decifrando a mente daquela loira maquiavélica.
- Tudo... e você, tudo em cima?
   Ele estava impressionado: como as mulheres poderiam ser tão... falsas.
- Tudo ótimo.
   E ainda tem cara de pau. Conversa vai (eu soube que você tá tentando parar de fumar, é verdade?), conversa vem (é...). Tudo ocorria bem até que...
   Sérgio resolveu o quebra cabeça. “Era isso! Diego sabia que ela estava pondo chifres nele e vai largá-la. Ela não sabe que o Diego sabe. A Gisele percebeu que eu a encontrei com o... amiguinho dela. É isso, ela quer dar pra mim, por que aí eu deixo de ser testemunha e viro... uma espécie de amante. Eu não vou fazer isso com meu irmão...”. Tudo ocorria bem até que....
- Oi, Sérgio, você tá aí?
- Me desculpa, eu me distraí com meus pensamentos...
   Os olhos dele não desgrudavam daqueles lábios carnudos. O diabinho e o anjinho surgiram ao redor de sua cabeça. “Mas ela é a mulher do seu irmão..” dizia o bichinho de auréola. O outro respondeu “Era. Agora, você precisa fazer o preciso para parar de fumar” e acabou com a discussão. Ele então estava decidido a levar a moça Gisele pra cama e começou um papo mais sedutor. Sérgio era mestre nisso. Tudo ocorria bem até que...
- Ei, que tal a gente ir lá pra casa?.
   Ela assentiu com a cabeça. Tudo ocorreu bem. Mais que bem. Foi ótimo. Ela virou para o lado para descansar um pouco, ele sentou-se nu na cama. O remorso atingiu-lhe em cheio. Tinha sido um escroto com o irmão. Maquinalmente pegou um cigarro e um isqueiro na cômoda. Hesitou, pensando “tenho que parar de fumar.”. Tudo ocorria bem até que...
   O celular tocou.
- Alô.
- Alô... A gente pode falar agora, Sérgio?
   Seus olhos percorreram o corpo de Gisele e ele respondeu: Claro, claro.
- O que eu estava dizendo antes era que eu descobri de tudo. Você já sabe né. Eu to aqui na casa da mamãe e achei dois maços de cigarro no lixo, você não falou que ia parar?
- É... Eu... Eu... Sei... Foi mal.
   Seu coração disparou.
- Ei, você sabe onde tá a sua mulher agora?
- Ah, ela foi combinar o orçamento com o cara da dedetizadora no bar, a gente ta cheio de cupim lá em casa. Se ela já acabou com isso deve estar em casa. Por quê?
- Ah tá. Não, nada. É que eu achei que tinha visto ela no bar...
- É, ela devia estar lá mesmo.
- Certo. É... Bem, eu vou parar de fumar, não... Não se preocupe meu irmão.
   Sérgio desligou o celular. Pegou vários cigarros e pôs na boca. Acendeu todos. E praguejou silenciosamente para si mesmo: puta que pariu.

[29/03/09]

29.3.09

Almoço

 

   Este tipo de cena já havia acontecido muitas vezes de madrugada, no quintal de Ofélia. Naquele dez de outubro foi a primeira vez em que se sucedeu ao meio-dia, em outro lugar.
   Os motivos eram simples: fome e vontade. O dia era um prato cheio. A rua toda engarrafada por causa de um caminhão, um inútil guarda de trânsito, buzinas e gritos: uma garrafa de testosterona. O automóvel causador do congestionamento descarregava caixas de cerveja para o bar. O local estava cheio de homens: outra garrafa de testosterona.
   Do modo mais barulhento, sem fazer um pio, Ofélia - uma linda mulata - e sua cadela passavam. As cabeças masculinas convergiam em direção à bunda dela, claro.
   Ninguém sabia que ambas eram, na verdade, sinistras. Dos carros vinham assovios, do bar gritos e uivos. As feras só precisavam de uma presa, alguém que mordesse a isca.
   Surpreendentemente, quem o fez foi o guarda:
- Ei senhorita, cuidado com esses bêbados – e cometeu o erro de acrescentar – Se precisar de proteção, Guarda Osmar é a solução – então, riu.
   Era tudo que a detentora do belo bumbum e da cadela faminta queria ouvir:
- Princesa! Almoço! Pega!
   A cena foi realmente feia, o grito de dor ecoa até hoje no ouvido daqueles homens que estavam presentes quando vêem uma cadelinha correndo. O congestionamento era agora silencioso – uma mulher berrou “É assim que se faz!” – e a cadela Princesa estava alimentada. Infelizmente para o Guarda Osmar, ele não seria a solução de ninguém tão cedo.
   Ofélia seguiu seu passeio em paz, ainda mais satisfeita que sua cadela.

[24/09/08]